1HUNDRENDmoments
2003
sinos tocavam lá fora, abafados pelo ladrar dos cães. Com movimentos rápidos, os sinos rompiam o silêncio misterioso que se fazia ouvir por entre o vento, que soprava pela frecha da janela da sala de estar.
Ele, só e sentado na cadeira forrada com retalhos, falava para com o seu interior, como quem estava chateado com alguém. Os gritos soavam alto e ecoavam nas paredes ocas que de boa vontade ouviam, sem sequer lhes responder ou aconselhar, apenas o deixando ouvir a resposta que tirava da pergunta que fazia naquele momento em que pensava.
Recordando aquilo que tinha dito naquela tarde enevoada em que pintara tijolos de preto e branco, como quem queria ver alguém, alguém ainda com esperança, alguém que fosse, mas não, não se conseguia lembrar do que se passara a seguir.
Foi então que pensou que talvez pudesse ficar mais alegre se se lembrasse porque pintara os tijolos de branco e negro, porquê duas cores tão parecidas, duas cores com um significado tão semelhante.
Abriu mais um pouco a janela e o ladrar aumentou de intensidade, como que tivesse saído porta fora para dentro de casa de alguém que lhe era completamente estranho, para um sítio que desconhecera totalmente, para um local tão frio como o gás que se entornara na mão, caído de uma qualquer bilha azul ou verde, pequena ou grande, o que importa?
Como que um rebentar de um qualquer cinzeiro, aquecido até tal ponto, lembra-se que já se tinha esquecido totalmente do que se passara ontem, e que também não importa, não importa porque, o que ia mudar, já estava feito não adiantava vaguear mais por entre as frechas que o vento fazia abrir por entre as portas da cómoda, cómoda antiga e com tantas histórias escondidas por contar.
A Fábrica
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